O recorde de 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes mostra que o risco de comprador está espalhado, principalmente entre empresas pequenas. Quem compra o seu título leva isso em conta. Quanto pior o sacado, maior tende a ser a taxa de desconto, a retenção e a exigência de coobrigação ou recompra, e maior o custo efetivo para você.
Na prática, a carteira não deve ser tratada como bloco único. Segmente por sacado, defina um limite para cada um e escolha quais títulos antecipar.
O que o dado da Serasa diz, e o que não diz?
Em agosto de 2026, 9,3 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, alta de 14,3% sobre agosto de 2025, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. São 68,2 milhões de dívidas, somando R$ 244,4 bilhões. Cada empresa acumula, em média, 7,4 contas negativadas.
O número não quer dizer que 9,3 milhões de compradores estejam devendo a você. O indicador conta empresas com ao menos um compromisso vencido, cujo não pagamento foi formalmente comunicado pelo credor. Desse total, 8,8 milhões são micro e pequenas empresas, cerca de 95%. Por setor, a distribuição é: Serviços 56,0%, Comércio 32,0% e Indústria 8,0%.
O risco de sacado está disseminado, sobretudo entre os pequenos. Isso não prova que o risco subiu em toda a sua carteira, e quem responde a isso é a sua própria base de clientes.
O ritmo de alta diminuiu. Isso alivia o cedente?
Pouco. A variação anual recuou de 28,7% para 14,3%, mas a economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, afirma que o ritmo é "ainda muito elevado" e que os cortes de juros ainda não alteraram as condições das empresas.
Há outro sinal. A demanda das empresas por crédito cresceu 11,2% em 12 meses, e as concessões de capital de giro de curto prazo avançaram 113,9%. Segundo a Serasa, isso indica uso do crédito para sustentar a liquidez, mais do que para reduzir dívida ou expandir negócios.
Para quem vende a prazo, a hipótese de trabalho é que compradores com caixa apertado peçam mais prazo e paguem com mais atraso. Isso é uma inferência, não um dado da Serasa, e vale testá-la na sua base.
O custo do dinheiro também segue alto. Após a reunião de 16/09/2026, a meta da Selic está em 13,75% ao ano, conforme o Banco Central. Noticiado por Bora Investir, da B3: decisão unânime, quinta reunião seguida com corte de 0,25 ponto percentual. A taxa de cada cessão depende da Selic, do prazo, do risco do sacado e da estrutura da operação.
Por que o risco do sacado muda o preço da cessão?
Na antecipação, quem compra o título passa a depender de que o sacado pague no vencimento. Por isso o risco dele entra no preço por quatro caminhos:
- Taxa de desconto: o deságio cobrado sobre o valor de face. Sacado mais arriscado, taxa maior.
- Retenção: parte do valor que fica retida como garantia e só volta se o título for pago. Reduz o caixa que você recebe hoje.
- Coobrigação: você responde se o sacado não pagar. Sem coobrigação, o risco fica com quem compra o título, que tende a cobrar mais.
- Recompra: você readquire o título que não foi pago.
Esses mecanismos variam de contrato para contrato. Leia o que está previsto no seu antes de comparar propostas.
Quanto custa antecipar o mesmo título para um sacado bom e para um ruim?
O exemplo abaixo é hipotético. As taxas e retenções são ilustrativas, não são preços de mercado nem de nenhuma instituição. Usei desconto simples para calcular o desconto, para a conta ficar visível. O equivalente ao mês, porém, foi calculado com capitalização composta.
Título de R$ 100.000, vencimento em 60 dias, mesmo valor e mesmo prazo para os dois sacados.
| Passo | Sacado de baixo risco | Sacado de alto risco |
|---|---|---|
| Valor de face | R$ 100.000 | R$ 100.000 |
| Taxa de desconto (hipotética) | 2,0% ao mês | 3,5% ao mês |
| Desconto (taxa × 2 meses × face) | R$ 4.000 | R$ 7.000 |
| Retenção (hipotética) | 5% = R$ 5.000 | 15% = R$ 15.000 |
| Caixa recebido hoje (face − desconto − retenção) | R$ 91.000 | R$ 78.000 |
| Custo sobre o caixa recebido (desconto ÷ caixa) | 4,40% em 60 dias | 8,97% em 60 dias |
| Equivalente ao mês (capitalização composta) | cerca de 2,17% | cerca de 4,39% |
A taxa nominal do sacado ruim é 1,75 vez a do bom (3,5 ÷ 2,0). O custo efetivo é cerca de 2 vezes maior. A diferença vem da retenção. Você paga o desconto e recebe menos caixa hoje, então o mesmo custo pesa sobre uma base menor. Quando o sacado paga, a retenção volta no vencimento, mas até lá ela não financia a sua operação.
E se o sacado ruim não pagar?
Ainda no exemplo hipotético, suponha coobrigação com recompra e o sacado de alto risco sem pagar no vencimento.
| Fluxo do cedente | Valor |
|---|---|
| Caixa recebido hoje | + R$ 78.000 |
| Recompra do título pelo valor de face | − R$ 100.000 |
| Retenção utilizada na recompra | + R$ 15.000 |
| Saldo no vencimento | − R$ 85.000 em caixa |
Você recebeu R$ 78.000 e devolveu R$ 85.000, e o título inadimplido voltou para a sua carteira. O custo passou a incluir, além do desconto de R$ 7.000, o trabalho e o risco de cobrar um comprador que já falhou. Com a inadimplência alta, esse é o ponto que mais surpreende quem só comparou taxas.
Como rever prazo de venda e risco de sacado?
Segmente a carteira. Separe os sacados por comportamento de pagamento: quem paga em dia, quem atrasa de vez em quando e quem atrasa com frequência. Use o seu histórico, não o indicador nacional.
Defina limite por sacado. Estabeleça um teto de exposição para cada comprador, incluindo o que está a vencer e o que já foi antecipado. Um sacado grande e concentrado pode pesar mais do que dez pequenos.
Escolha quais títulos antecipar. Nem todo título precisa ir para a cessão. Antecipar os de sacados de baixo risco tende a sair mais barato e a reduzir a exigência de retenção, coobrigação e recompra. Os de maior risco podem ficar para a carteira própria, com cobrança ativa, ou ser antecipados em volume menor.
Revise o prazo de venda. Se um comprador pede mais prazo, o título fica mais caro de antecipar e mais exposto a atraso. Faça a conta do desconto para o prazo pedido antes de aceitar. Um desconto comercial menor pode custar menos do que o prazo extra.
Formalize o título. Título bem registrado facilita a análise de quem compra. Veja o que já vale na duplicata escritural para quem vende a prazo.
O que fazer agora
- Liste seus 20 maiores sacados, com valor a receber, prazo médio e histórico de atraso.
- Classifique cada um em baixo, médio ou alto risco com base no seu histórico.
- Defina um limite de exposição por sacado.
- Refaça a tabela acima com as propostas reais que você recebeu, incluindo retenção e recompra. Compare pelo custo sobre o caixa recebido, não só pela taxa nominal.
- Antecipe primeiro os títulos de sacados de baixo risco. Para os de alto risco, avalie condições de pagamento mais curtas antes da próxima venda.
- Se a operação envolver estrutura de crédito mais ampla, leia também como o FIDC vem ganhando espaço sobre debêntures para o originador.