Inadimplência recorde: como o sacado muda o custo da antecipação

Com 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, o risco do sacado pesa no preço da cessão. Veja o cálculo com dois perfis e o que o cedente deve fazer.

BL

Bruno Lansini · Engenheiro Civil
· 7 min de leitura

O recorde de 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes mostra que o risco de comprador está espalhado, principalmente entre empresas pequenas. Quem compra o seu título leva isso em conta. Quanto pior o sacado, maior tende a ser a taxa de desconto, a retenção e a exigência de coobrigação ou recompra, e maior o custo efetivo para você.

Na prática, a carteira não deve ser tratada como bloco único. Segmente por sacado, defina um limite para cada um e escolha quais títulos antecipar.

O que o dado da Serasa diz, e o que não diz?

Em agosto de 2026, 9,3 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, alta de 14,3% sobre agosto de 2025, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. São 68,2 milhões de dívidas, somando R$ 244,4 bilhões. Cada empresa acumula, em média, 7,4 contas negativadas.

O número não quer dizer que 9,3 milhões de compradores estejam devendo a você. O indicador conta empresas com ao menos um compromisso vencido, cujo não pagamento foi formalmente comunicado pelo credor. Desse total, 8,8 milhões são micro e pequenas empresas, cerca de 95%. Por setor, a distribuição é: Serviços 56,0%, Comércio 32,0% e Indústria 8,0%.

O risco de sacado está disseminado, sobretudo entre os pequenos. Isso não prova que o risco subiu em toda a sua carteira, e quem responde a isso é a sua própria base de clientes.

O ritmo de alta diminuiu. Isso alivia o cedente?

Pouco. A variação anual recuou de 28,7% para 14,3%, mas a economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, afirma que o ritmo é "ainda muito elevado" e que os cortes de juros ainda não alteraram as condições das empresas.

Há outro sinal. A demanda das empresas por crédito cresceu 11,2% em 12 meses, e as concessões de capital de giro de curto prazo avançaram 113,9%. Segundo a Serasa, isso indica uso do crédito para sustentar a liquidez, mais do que para reduzir dívida ou expandir negócios.

Para quem vende a prazo, a hipótese de trabalho é que compradores com caixa apertado peçam mais prazo e paguem com mais atraso. Isso é uma inferência, não um dado da Serasa, e vale testá-la na sua base.

O custo do dinheiro também segue alto. Após a reunião de 16/09/2026, a meta da Selic está em 13,75% ao ano, conforme o Banco Central. Noticiado por Bora Investir, da B3: decisão unânime, quinta reunião seguida com corte de 0,25 ponto percentual. A taxa de cada cessão depende da Selic, do prazo, do risco do sacado e da estrutura da operação.

Por que o risco do sacado muda o preço da cessão?

Na antecipação, quem compra o título passa a depender de que o sacado pague no vencimento. Por isso o risco dele entra no preço por quatro caminhos:

  • Taxa de desconto: o deságio cobrado sobre o valor de face. Sacado mais arriscado, taxa maior.
  • Retenção: parte do valor que fica retida como garantia e só volta se o título for pago. Reduz o caixa que você recebe hoje.
  • Coobrigação: você responde se o sacado não pagar. Sem coobrigação, o risco fica com quem compra o título, que tende a cobrar mais.
  • Recompra: você readquire o título que não foi pago.

Esses mecanismos variam de contrato para contrato. Leia o que está previsto no seu antes de comparar propostas.

Quanto custa antecipar o mesmo título para um sacado bom e para um ruim?

O exemplo abaixo é hipotético. As taxas e retenções são ilustrativas, não são preços de mercado nem de nenhuma instituição. Usei desconto simples para calcular o desconto, para a conta ficar visível. O equivalente ao mês, porém, foi calculado com capitalização composta.

Título de R$ 100.000, vencimento em 60 dias, mesmo valor e mesmo prazo para os dois sacados.

Passo Sacado de baixo risco Sacado de alto risco
Valor de face R$ 100.000 R$ 100.000
Taxa de desconto (hipotética) 2,0% ao mês 3,5% ao mês
Desconto (taxa × 2 meses × face) R$ 4.000 R$ 7.000
Retenção (hipotética) 5% = R$ 5.000 15% = R$ 15.000
Caixa recebido hoje (face − desconto − retenção) R$ 91.000 R$ 78.000
Custo sobre o caixa recebido (desconto ÷ caixa) 4,40% em 60 dias 8,97% em 60 dias
Equivalente ao mês (capitalização composta) cerca de 2,17% cerca de 4,39%

A taxa nominal do sacado ruim é 1,75 vez a do bom (3,5 ÷ 2,0). O custo efetivo é cerca de 2 vezes maior. A diferença vem da retenção. Você paga o desconto e recebe menos caixa hoje, então o mesmo custo pesa sobre uma base menor. Quando o sacado paga, a retenção volta no vencimento, mas até lá ela não financia a sua operação.

E se o sacado ruim não pagar?

Ainda no exemplo hipotético, suponha coobrigação com recompra e o sacado de alto risco sem pagar no vencimento.

Fluxo do cedente Valor
Caixa recebido hoje + R$ 78.000
Recompra do título pelo valor de face − R$ 100.000
Retenção utilizada na recompra + R$ 15.000
Saldo no vencimento − R$ 85.000 em caixa

Você recebeu R$ 78.000 e devolveu R$ 85.000, e o título inadimplido voltou para a sua carteira. O custo passou a incluir, além do desconto de R$ 7.000, o trabalho e o risco de cobrar um comprador que já falhou. Com a inadimplência alta, esse é o ponto que mais surpreende quem só comparou taxas.

Como rever prazo de venda e risco de sacado?

Segmente a carteira. Separe os sacados por comportamento de pagamento: quem paga em dia, quem atrasa de vez em quando e quem atrasa com frequência. Use o seu histórico, não o indicador nacional.

Defina limite por sacado. Estabeleça um teto de exposição para cada comprador, incluindo o que está a vencer e o que já foi antecipado. Um sacado grande e concentrado pode pesar mais do que dez pequenos.

Escolha quais títulos antecipar. Nem todo título precisa ir para a cessão. Antecipar os de sacados de baixo risco tende a sair mais barato e a reduzir a exigência de retenção, coobrigação e recompra. Os de maior risco podem ficar para a carteira própria, com cobrança ativa, ou ser antecipados em volume menor.

Revise o prazo de venda. Se um comprador pede mais prazo, o título fica mais caro de antecipar e mais exposto a atraso. Faça a conta do desconto para o prazo pedido antes de aceitar. Um desconto comercial menor pode custar menos do que o prazo extra.

Formalize o título. Título bem registrado facilita a análise de quem compra. Veja o que já vale na duplicata escritural para quem vende a prazo.

O que fazer agora

  1. Liste seus 20 maiores sacados, com valor a receber, prazo médio e histórico de atraso.
  2. Classifique cada um em baixo, médio ou alto risco com base no seu histórico.
  3. Defina um limite de exposição por sacado.
  4. Refaça a tabela acima com as propostas reais que você recebeu, incluindo retenção e recompra. Compare pelo custo sobre o caixa recebido, não só pela taxa nominal.
  5. Antecipe primeiro os títulos de sacados de baixo risco. Para os de alto risco, avalie condições de pagamento mais curtas antes da próxima venda.
  6. Se a operação envolver estrutura de crédito mais ampla, leia também como o FIDC vem ganhando espaço sobre debêntures para o originador.

Fontes

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